Passagem da bíblia:Numa ocasião, o apóstolo João disse a Jesus: "Mestre, vimos certo homem expulsar demônios (espíritos) pelo uso de teu nome, e tentamos impedi-lo, porque não nos acompanhava." Este homem, evidentemente, era bem sucedido em expulsar demônios (espíritos inferiores), porque Jesus disse: "Ninguém há que faça uma obra poderosa à base do meu nome que logo possa injuriar-me." Portanto, Jesus ordenou que não tentassem impedi-lo, "pois quem não é contra nós, é por nós". (Mc. 9:38-40. Entre Jesus e as religiões eu fico com Jesus.

1.8.09

Alexandre Caroli: Psicografias de Chico Xavier nas universidades

Conheci Alexandre Caroli já faz algum tempo. Foi em 2003, na ocasião em que um grupo de pesquisadores do tema espírita se reuniu com o objetivo de trocar experiências e informações a respeito do que estava sendo realizado até aquele momento nas universidades, tanto no Brasil como no exterior, levando em conta diversas áreas do conhecimento: medicina, psicologia, psiquiatria, física, química, história, letras, comunicação etc.

Alexandre e eu integrávamos o grupo de pesquisadores da área de Ciências Humanas. Outros dois grupos no encontro eram das Ciências Exatas e das Ciências Biomédicas. No período, Alexandre já havia concluído, em Letras, na Unicamp, sua dissertação de mestrado sobre o primeiro livro de Chico Xavier: Parnaso de Além-túmulo. Agora, em 2008, ele defendeu, também na Unicamp, sua tese de doutorado, sobre a qual fala nesta entrevista.

O que o levou a realizar projetos de pós-graduação, mestrado e doutorado, sobre a temática espírita, sobretudo referentes às psicografias de Chico Xavier, primeiro, tratando do livro inaugural do médium mineiro; depois, cuidando das publicações mediúnicas atribuídas ao escritor Humberto de Campos?

AC: Havia, desde a adolescência, o gosto pela leitura, mas sem idéia de que isso poderia virar uma profissão. Na graduação, li bastante o que estava à disposição de um modo geral: escritores brasileiros e estrangeiros. Tive, também, acesso aos estudos da linguagem, relacionados à literatura e à lingüística, que muito me auxiliaram para enfrentar os textos. Ainda na graduação, consegui duas bolsas de estudo para pesquisar o contista brasileiro Dalton Trevisan. Nessa época, minha irmã Cristina, que freqüentava um centro espírita em São Paulo, presenteou-me com um livro do Chico Xavier (1910-2002) intitulado Parnaso de Além-túmulo. Aos poucos, fui me interessando por aqueles curiosos poemas, atribuídos a dezenas de escritores "mortos". Pouco depois da graduação, comecei a cursar o mestrado. Após algumas indecisões, resolvi pesquisar esse livro de poemas. Escrevi um esboço de projeto e fui procurar um professor que aceitasse me orientar. Não foi tão difícil, como se poderia imaginar, visto que o tema é controverso. Na terceira tentativa, consegui um orientador, que me ajudou a concluir o projeto e me acompanhou ao longo da pesquisa, o professor Haquira Osakabe. A dissertação foi defendida em 2001. Em síntese, foi um estudo sobre o livro Parnaso de Além-túmulo, a sua formação, o seu histórico, as relações textuais que cinco conjuntos de poemas estabelecem com as obras dos poetas a quem são atribuídos, no caso: João de Deus, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Augusto dos Anjos e Cruz e Sousa. A quem se interessar, a dissertação está disponível na internet, no site da Biblioteca Digital da Unicamp. Depois, no doutorado, com o mesmo orientador, estudei os livros que Chico Xavier atribuiu a Humberto de Campos e a Irmão X. Os dois trabalhos foram financiados pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Você encontrou, nessas suas pesquisas, o que eu chamaria de "elemento surpresa", aquilo que não se esperava encontrar?

AC: Sim, encontrei várias surpresas. Lembro-me, por exemplo, da surpresa que foi descobrir que, embora com as novidades da temática espírita, muitos dos poemas estudados continham, em diversos níveis, traços poéticos que iam ao encontro dos descritos pelos principais críticos dos autores estudados. No doutorado, fiquei novamente impressionado quando descobri, em alguns textos mediúnicos, a existência de certas camadas de leitura, relacionadas ao repertório literário de Humberto de Campos, que sugerem, digamos, um trabalho de relojoeiro. São achados de difícil assimilação.

Em seu trabalho, como você lidou com a questão mediúnica nesses textos?

AC: Para nós, leitores, o fator mediúnico é, grosso modo, uma declaração. Um médium afirma em público que o verdadeiro autor dos escritos que produziu é um autor espiritual. O leitor decide se aceita a alegação. A tendência, me parece, é o livro ser lido por aqueles que acreditam na autoria espiritual. Nos meus trabalhos, um primeiro passo para lidar com a questão foi observar como os textos psicografados foram entendidos por seus comentadores, quais leituras eles suscitaram. Mas a parte principal das pesquisas foram as análises textuais, orientadas pelo seguinte questionamento de fundo: o que o autor desses textos demonstra conhecer do repertório literário da autoria alegada?

Com relação ao procedimento de análise dos textos estudados, o que foi alterado, do mestrado para o doutorado?

AC: Uma diferença inicial foi a do registro: no mestrado, poesia; no doutorado, prosa. No primeiro, a análise dos poemas foi pautada em determinados estudos críticos a respeito dos autores. No segundo, com apoio de uma ampla bibliografia, fiz um estudo sobre Humberto de Campos com base no qual pautei as considerações a respeito dos livros mediúnicos atribuídos ao escritor. Mas, nos dois casos, estudei autores da literatura brasileira e portuguesa. Digo isso para diferenciá-los dos autores das páginas de Chico Xavier que não possuem uma obra escrita não mediúnica, a exemplo de Emmanuel, André Luiz e tantos outros.

Qual foi sua questão principal na tese sobre Humberto de Campos e Chico Xavier?

AC: É muito rico o material de estudo sobre Humberto de Campos e Chico Xavier, ainda mais quando se considera o "caso Humberto de Campos", ocorrido em 1944, quando a família do escritor moveu uma ação judicial contra o médium e a FEB. O processo provocou a substituição do nome do escritor para Irmão X. O meu estudo foi orientado pelo problema autoral dos livros que Chico Xavier atribuiu a Humberto de Campos e a Irmão X, questão que possui muitos desdobramentos. Minha pergunta foi a seguinte: como funciona a autoria nesses livros? Um dos pontos que mais me chamaram a atenção, ao longo da pesquisa, foram as estratégias usadas pelo autor para dar a entender que ele é o próprio Humberto de Campos após sua morte. Para isso, ele demonstra ser um perito naquilo que diz respeito ao escritor. Em dois capítulos da tese, procuro desvendar os procedimentos de que o autor lança mão para provocar o que chamei de "efeito de sobrevivência".

Como aconteceu a escolha do material? E a seleção, você trabalhou com quais títulos?

AC: Fiz uma longa pesquisa sobre Humberto de Campos e li seus textos reunidos em livros, que totalizam cerca de 45 volumes. Para obtê-los, tive que freqüentar muitos sebos, porque o escritor já caiu em esquecimento há várias décadas – embora seu nome tenha sobrevivido num outro espaço cultural, por meio dos textos de Chico Xavier a ele atribuídos, que continuam sendo reeditados. Quanto a estes, estudei os 12 livros que a FEB publicou entre 1937 e 1969, além de textos do mesmo conjunto autoral publicados na revista Reformador. A partir desse material, fui reunindo bibliografia para tratar das questões que surgiam durante o estudo.

Quais são os livros em que o autor espiritual mais se empenhou no diálogo com a obra de Humberto de Campos?

AC: São os três primeiros atribuídos ao escritor – Crônicas de além-túmulo (1937); Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho (1938); e Novas mensagens (1940) – e o primeiro de Irmão X: Lázaro redivivo (1945). Na tese, eu explico por quê.

Como ter acesso à sua tese?

AC: Na internet, ela logo estará disponível na Biblioteca Digital da Unicamp.

Há outras psicografias de outros médiuns no Brasil que trazem o nome de Humberto de Campos? Você tratou disso também?

AC: Sei que existem, mas não fizeram parte da pesquisa.

E Chico Xavier, como ele entra em seu estudo? Isto é, qual o papel desempenhado por ele nesse conjunto de textos psicografados que você estudou?

AC: Em 1932, o primeiro livro de Chico Xavier foi resenhado duas vezes por Humberto de Campos, que morreria dois anos depois, em dezembro de 1934. Na época, ele era um dos escritores mais lidos do Brasil, e Chico Xavier, um jovem desconhecido. O médium começou a atribuir textos ao escritor em 1935. Nos anos 30 e 40, a grande popularidade de Humberto de Campos foi um dos fatores que projetaram nacionalmente o nome de Chico Xavier. Décadas depois, a situação se inverteu: o autor de Memórias foi esquecido, ao passo que o médium se tornou uma das personalidades de maior destaque em nosso país. Na tese, Chico Xavier também é visto como personagem de alguns de seus textos mediúnicos e, por meio de cartas dele próprio, tornadas públicas nos anos 80, observamos como ele reagia ao processo de 1944 e como eram os bastidores editoriais de parte de sua produção psicográfica. Na parte final da tese, falo da relação entre a presença de autores de prestígio em seus primeiros livros e a conquista de credibilidade de Chico Xavier como médium.

Das contribuições de sua tese para o público em geral, o que você poderia dizer aqui para concluir esta nossa entrevista?

AC: Em certo ponto do trabalho, falo do contraste entre os supostos conhecimentos de Chico Xavier, que declarava nunca ter estudado Humberto de Campos, e o conjunto de conhecimentos específicos, presentes em textos psicografados, que vem, necessariamente, de uma fonte que detém um especial domínio do repertório literário do escritor maranhense. Levando em conta contrastes como esse, acho que seria muito importante desenvolver novas pesquisas em diversas áreas, para tentarmos compreender os fenômenos da mediunidade de efeitos e seus devidos desdobramentos.

De minha parte, as descobertas sobre psicografia me trouxeram muitas indagações, que provavelmente me levarão a tantos outros estudos a esse respeito.

Texto publicado na edição 423 (set/out de 2008)

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